O Teatro Escola Macunaíma, fiel ao seu compromisso com a pesquisa e o aprofundamento na arte da atuação, promoveu mais um encontro enriquecedor em seu tradicional Café Teatral. Desta vez, o foco esteve na investigação minuciosa da atriz sobre os sentidos. A convidada de honra, a professora e pesquisadora Simone Shuba, trouxe à tona seu trabalho sobre a percepção sensorial no palco, sintetizado em seu instigante “Diário de Investigação”.
Simone Shuba, coordenadora metodológica do Macu, atriz, diretora teatral e pesquisadora do Sistema de Stanislávski, é uma das maiores autoridades brasileiras na aplicação prática das técnicas de atuação. Sua pesquisa não é puramente acadêmica; ela nasce da prática constante, da busca por desvendar os mecanismos psicofísicos que dão vida a um papel.
O cerne de sua investigação reside na forma como a atriz utiliza e estimula seus cinco sentidos – visão, audição, tato, paladar e olfato – para construir estados emocionais e ações orgânicas. O corpo do ator/atriz é um laboratório, e o “Diário de Investigação” de Simone Shuba é o registro detalhado e reflexivo desse processo.
Durante o Café Teatral, Simone Shuba mergulhou nos conceitos que regem seu trabalho, mostrando como a reeducação da percepção sensorial é vital para a Verdade Cênica. Sua palestra explorou a maneira como a Memória Afetiva e a memória sensorial se entrelaçam.
Para Shuba, não é questão de lembrar ou reviver uma emoção; é preciso que um conjunto de sensações seja suscitado. O cheiro da chuva, o toque de um tecido, um som distante, uma luz particular – são esses “ganchos” sensoriais que disparam uma resposta emocional orgânica e verdadeira no ator/atriz, afastando a atuação da artificialidade.
Outro ponto crucial debatido foi a capacidade do ator/atriz estar em plena “qualidade de presença”. Utilizando exercícios práticos de seu diário, Shuba demonstrou como a aguçada atenção aos estímulos sensoriais presentes no palco – a temperatura, a luz, o cheiro do cenário – ancora o ator/atriz no “aqui e agora” da cena, permitindo que as ações sejam reativas e dinâmicas, e não meramente ensaiadas.
Assim, o trabalho de investigação de Simone Shuba sugere que o ator/atriz deva expandir seu repertório sensorial para além do cotidiano. Ou seja, que estabeleça um treino contínuo para refinar a percepção, para notar as nuances do que é o “nada” e o “silêncio” no palco, transformando a ausência em um espaço cheio de possibilidades criativas. Essa disciplina é fundamental para se construir papéis complexos, com um mundo interior rico e detalhado.
A presença e a pesquisa de Simone Shuba no Café Teatral do Macu mais uma vez reforçaram a excelência pedagógica da escola. Ao oferecer esse mergulho no universo dos sentidos, o Macunaíma reafirma seu papel como um centro que não apenas ensina a técnica, mas estimula o ator e a atriz a se tornarem verdadeiros pesquisadores de seu próprio ofício. O “Diário de Investigação” de Simone Shuba é, portanto, um convite irrecusável: olhe para dentro, sinta o mundo e use essa verdade na arte.