O novo tema de investigação do Macu chega com uma provocação profunda. Sob o título “CORPOREIDADES: Fluxos entre (des)equilíbrio, natureza e criação cênica”, ele mergulha nas raízes do movimento, cruzando dois universos fundamentais: os ensinamentos práticos de Konstantin Stanislávski e a sabedoria filosófica de Leda Maria Martins.
O tema desta edição nos convida a pensar o corpo não como uma ferramenta estática, mas como um sistema vivo em constante fluxo. O (des)equilíbrio aqui não é visto como erro, mas como o motor da vida. Assim como na natureza nada é perfeitamente imóvel, a criação cênica se alimenta da tensão entre o cair e o levantar, entre o caos da inspiração e a ordem da técnica.
Neste fluxo, a natureza serve como o espelho maior: ela se adapta, se transforma e encontra caminhos através da resistência. Para o ator ou a atriz, entender essas corporeidades significa alinhar sua biologia interna com a energia do espaço.
A base teórica do tema bebe na fonte de Leda Maria Martins, especialmente em sua obra “Performances do Tempo Espiralar”. Diferentemente de uma visão linear do tempo (passado, presente e futuro como pontos isolados), o tempo espiralar nos ensina que o passado habita o presente e projeta o futuro simultaneamente.
Dessa forma e por meio das poéticas do corpo-tela, o ator ou a atriz se torna um veículo de memórias e ancestralidades. O palco deixa de ser apenas um lugar de “faz de conta” para se tornar um espaço de ritual, em que cada gesto carrega o peso e a leveza de tudo o que veio antes.
Para ancorar essa filosofia na prática teatral, o tema resgata uma das máximas mais potentes de Konstantin Stanislávski: “Não persigam sentimentos, mas aprendam a agir corretamente, pois as ações causarão os impulsos certos e os impulsos certos causarão as emoções certas.”
Essa afirmação retira do ator e da atriz a pressão de “ter que sentir” algo de forma abstrata. E, em vez disso, propõe o foco na ação física concreta. Ao se concentrar no “fazer” – no fluxo real do corpo e na interação com o outro(a) – a emoção surge organicamente, como uma consequência natural do movimento e do equilíbrio em cena.
O público encontrará trabalhos que desafiam a mera representação. Veremos em cena corpos que investigam seus limites poéticos e peças que exploram a circularidade do tempo, bem como a ancestralidade brasileira.
E isso a partir da investigação prática do Sistema Stanislávski em busca de uma Verdade Cênica que nasce da ação. Assim, a 104ª Mostra de Teatro Macunaíma será, acima de tudo, uma celebração do teatro como organismo vivo, onde a técnica e a alma dançam no mesmo ritmo. Então, não deixa de acompanhar o desenvolvimento de cada passo e de conferir as obras que resultarão desse caminhar!